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16/11/2016 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM A releitura da Torá na vida de Jesus
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A leitura bíblica feita de forma ecumênica não pode deixar de considerar o Segundo Testamento (ST) como releitura do Primeiro Testamento (PT). Em muitos de nós, cristãos, essa ideia causa espanto. E não seria por menos! Por séculos a fio, ouvimos a afirmativa: somos a comunidade do “Novo” Testamento que rompeu com “Velho” Testamento/judaísmo, pois esse não foi capaz de aceitar Jesus como Messias. No diálogo inter-religioso, as diferenças devem ser mantidas. Importa perguntar pelo que nos une, não pelo que nos desune. Por isso, urge redescobrir Jesus judeu, nascido no seio de uma comunidade judaica, filho de mãe judia. As comunidades do ST compreenderam Jesus de modo judeu. Elas deixaram por escrito nos evangelhos o esforço comunitário de reler Jesus à luz da Torá. Assim, os primeiros cristãos testemunharam a experiência de fé que tiveram de Jesus-Messias, Aquele que viveu e assumiu plenamente a Torá. E, ao mesmo tempo, eles nos ensinaram a antiga lição: judaísmo e cristianismo são duas culturas distintas, mas com dois caminhos afins. O objetivo de cada uma delas é chegar a Deus, seja por meio do seguimento da Torá, seja por meio da Torá-Jesus. E viva a diferença, querida e manifestada a nós por nosso Deus, o Eterno! O judaísmo, com seu projeto de santificação, e o cristianismo, com seu projeto de salvação, serão sempre caminhos que nos levam a Deus. E nisso está a maravilha da manifestação de Deus entre nós.

Ao fazer uso do substantivo Torá, teremos a liberdade de seguir o pensamento judaico, o qual entende Torá como o Pentateuco, assim como Escritos ou Profetas. A Torá pode, então, ser o Pentateuco ou toda a Bíblia hebraica. Além disso, a Torá é também a tradição oral do povo da Bíblia. Temos, pois, a Torá Oral e a Escrita. O substantivo hebraico Torá é, na maioria das vezes, traduzido por “lei”. Preferimos considerá-lo no seu significado profundo de “caminho, conduta, modo de ser”. A Torá é um projeto de vida, conservado para nós nas Dez Máximas do Sinai, ou Dez Mandamentos. Os evangelhos legaram-nos vários modos de reler Jesus como Torá. Apresentaremos três modos.

Na circuncisão de Jesus

Uma leitura atenta dos evangelhos à luz da Torá nos levará inevitavelmente a perceber Jesus judeu, seguidor fiel da Torá oral e escrita (Cf. VIDAL, Marie; Um judeu chamado Jesus: uma leitura do Evangelho à luz da Torá. Petró- polis: Vozes, 2000). Jesus, durante a sua vida terrestre, colocou-se no caminho da Torá. Segui-La é também passar pelos ritos litúrgicos, os quais fazem um homem do povo eleito tornar-se judeu plenamente. Foi assim com Jesus. Com oito dias de nascimento, sua mãe, a judia Maria de Nazaré, o levou ao templo para ser circuncidado (cf. Lc 2,22- 28), segundo as prescrições da Torá. Nessa celebração, Ele recebeu o nome hebraico Yeshua (Jesus) e o sinal em seu corpo da pertença ao povo de Israel, a circuncisão. O substantivo hebraico milah quer referir-se à circuncisão e palavra. O judeu menino já nasce sabendo que sua vida deverá sempre ser de palavra, diálogo com o Eterno e suas revelações. Jesus foi esse diálogo, a Torá-Palavra.

Segundo a Torá oral, o rei Abimelec teria pronunciado diante de Abraão: “Não sou digno que entres na minha morada, mas diz somente uma palavra e minha casa será salva” (ExR 20,10-12). Sua reação se deveu ao fato de ele ter percebido que toda a sua vida teria ficado estéril com a presença de Sara, apresentada por Abraão como irmã. Fato notório de releitura dessa fala na boca do oficial romano a Jesus (cf. Mt 8,5-8), quando pede a Jesus que cure o seu criado. Jesus-Torá- Palavra cura. Assim, Jesus torna-se o novo Abraão que também se encontra com um estrangeiro, para o qual é sinal de salvação para toda a sua casa. Os cristãos ligaram posteriormente as palavras de Abimelec e do oficial romano à Eucaristia. E o fizeram muito bem, pois a Eucaristia é o lugar da celebração da memória. É circuncisão que cura, que confere a salvação, deixando em todo aquele que crê a marca da aliança eterna feita com Abraão, realizada plenamente em Jesus. E isso também é releitura.

Na celebração da maturidade de Jesus

Aos 12 anos, Jesus celebrou com os seus o Bar Mitswah (em português, “sujeito ao mandamento”). Assim, tornou-se adulto e, por isso, apto a seguir a Torá. Em uma solene celebração, Jesus leu a Torá. Os evangelhos conservam a memória de Jesus ainda menino e já considerado filho (sujeito ao) do mandamento, discutindo com os doutores da Lei no Templo de Jerusalém. A comunidade de Lucas (cf. Lc 4,16-22) retoma esse fato, quando Ele, prestes a iniciar a sua vida de evangelizador, leu na sinagoga de Nazaré e aplicou a si mesmo o texto de Is 61,1-2: “O espírito do Senhor está sobre mim para evangelizar os pobres”. Considerando a tradição judaica que permitia a leitura da Torá somente para homens casados, alguns veem nesse episódio a hipótese de que Jesus era casado. O narrador desses fatos queria mostrar como a Bíblia hebraica, chamada de Tanakh, isto é, sua tríplice divisão em Lei-Caminho-Instrução (Torá), Profetas (Nebiîm) e Escritos (Ketubîm), se realizou plenamente na vida de Jesus. Com sua apresentação no Templo, seus pais cumpriram por Ele a Torá. Aos 12 anos, já filho do mandamento, Jesus discutia a Torá com os doutores de Jerusalém. Em Nazaré, como evangelizador, leu o Profeta Isaías (Nebiîm). Na cruz, Jesus lembrou-se dos Escritos (Ketubim) ao recitar o Sl 31[30],6: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. E não por menos, o velho Simeão profetizara, no dia da circuncisão de Jesus, que Ele seria sinal de contradição para muitos e que uma espada transpassaria sua alma (cf. Lc 2,33-35).

Torá-Pomba no batismo de Jesus

Jesus, nascido de uma mulher e vindo de Nazaré, sabia, como bom judeu, que passaria pelo tempo cronológico (dias, meses, anos), mas seu objetivo era voltar ao tempo cósmico (eterno e infinito), ao tempo de Deus. A comunidade joanina, pensando nisso, começou o seu escrito afirmando: “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus” (Jo 1,1). “E a Palavra se fez ser humano e habitou entre nós” (Jo 1,14a). É como se a comunidade de João quisesse dizer: ela (Palavra Deus) se fez humano para nos tirar da situação de humanidade e nos devolver ao estado de graça, ao tempo divino e eterno. Assim, o Eterno fez-se terna Torá para nos devolver ao Eterno. Durante a vida terrena, cada um é chamado a cumprir as obrigações da Torá. Somente com a morte, estamos livres dela. O tempo de cada um é marcado pelo nascimento e pela morte. Entre esses dois pontos está a encarnação. E Jesus se encarnou no meio de nós para nos evangelizar. Ele pregou a Boa-Nova do Reino de Deus. Evangelização e encarnação caminham juntas. Por isso, não bastavam às comunidades dos evangelhos demonstrar que Jesus fora judeu plenamente. Era preciso demonstrar que a Torá caminhava com Ele, que Ele era a Torá. Nesse sentido, podemos entender memória, conservada por todos os evangelhos canônicos do batismo de Jesus. Em todos os textos encontramos: “O Espírito Santo desceu sobre ele em forma de pomba” (cf. Mt 3,13-17; Mc 1,9- 11; Lc 3,22; Jo 1,32-34). O que isso quer dizer? A pomba, em hebraico Yoná (também Jonas, em português), é uma ave frágil, de notória candura e fiel a seu companheiro. Por isso, os judeus fizeram dela o símbolo da paz e do povo de Israel. Israel quer a paz, mas vive sempre, por causa da sua fragilidade, perseguido pelas nações do mundo. Hoje, não sei se poderíamos dizer o mesmo de Israel. Basta ver a sua atitude em relação aos palestinos. A pomba só pode defender-se com suas asas. Assim também Israel só pode defender-se com a Torá, dada ao povo em duas tábuas. A pomba passou também a ser imagem da Presença divina. No batismo de Jesus, a Torá-Pomba desceu sobre Jesus e lhe conferiu a dignidade de Torá-Personificada. Torá confirma Torá. Os cristãos compreenderam no batismo de Jesus que Deus mesmo se lhes oferecia em Jesus, em foram de Torá. A presença simbólica de uma pomba no batismo de Jesus quer ser a sua confirmação como israelita, judeu e membro do povo de Deus, que se faz presente como sinal de esperança e força na fragilidade e candura de uma Yoná.

Outras releituras da Torá na vida de Jesus são facilmente encontradas nos evangelhos. Veremos outros exemplos no próximo número desta revista.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM é escritor e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma.

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