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31/12/2016 Frei Jonas Nogueira da Costa, OFM Maternidade divina de Maria Uma compreensão da humanidade destinada a Deus e da fecundidade divina
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"A contemplação da maternidade divina de Maria é um sinal evidente daquilo que a teologia da criação apresenta no livro do Gênesis, de que, todos nós somos ontologicamente destinados à comunhão com Deus, pois fomos criados para isso e a humanidade assumida na encarnação do Verbo se mostra plenamente capaz de Deus"

A maternidade de Maria revela o quanto o ser humano é “capaz de Deus”[1]. Toda a humanidade é chamada à comunhão com Deus, mas essa comunhão alcança tamanho grau de proximidade em Maria porque ela foi capaz de gerar no seu corpo o Verbo encarnado pela ação do Espírito Santo.

E assim como a gravidez de Maria é obra do Espírito Santo, todo o relacionamento da criatura com o Criador também é operado pelo Espírito. É o Espírito Santo que nos une a Deus e essa união se dá pelo amor. Não fomos nós os primeiros a amar Deus, mas Ele nos amou primeiro (cf. I Jo 4,10), Ele se inclinou para nos acolher no seu amor. E como a criatura, em si mesma, não alcança a grandeza do Criador, sua resposta de amor só pode ser mediada pelo mesmo Deus, ou seja, pelo Espírito, assim, “o Espírito Santo que é o Amor pelo qual o Pai ama o Filho é também o Amor pelo qual ama a criatura e lhe dá parte em sua perfeição”[2]. O único laço capaz de nos unir a Deus é o mesmo que o une em si mesmo, o Espírito Santo enviado por Deus aos nossos corações que clama “Abá, Pai” (cf. Gl 4,6).

Assim, a contemplação da maternidade divina de Maria é um sinal evidente daquilo que a teologia da criação apresenta no livro do Gênesis, de que, todos nós somos ontologicamente destinados à comunhão com Deus, pois fomos criados para isso e a humanidade assumida na encarnação do Verbo se mostra plenamente “capaz de Deus”.

Um segundo desdobramento da contemplação da maternidade divina de Maria sob a ótica pneumatológica é que Deus é um ser maternal e podemos tratar dessa questão pensando Deus na forma como Ele se revela na tradição cristã e nas demais culturas.

Nessas duas vertentes, o quadro da Virgem com a criança no colo é um paradigma para pensar Deus e seu amor materno. Isso nos leva à afirmação da teóloga Kathleen Coyle  de que a “[...] devoção à Mãe de Deus é, com frequência, devoção a Deus Mãe”[3], devido uma visceral ligação entre ambas figuras.

O teólogo francês F. X. Durrwell irá desenvolver a tese de um papel materno de Deus a partir do Espírito Santo, apoiando-se no conceito de Maximiliano Kolbe ao dizer que, na Trindade imanente: “Eles são três: um Genitor, um Gerado e a Geração, que é o Espírito Santo”[4]. Nessa linha, Durrwell irá apresentar o Espírito Santo como o “seio de Deus”, seu “útero” no qual o Filho é eternamente gerado.

As metáforas do “seio de Deus” e do “útero” são usadas para explicitar que o Espírito Santo é o poder de geração de Deus. Durrwell acolhe a possibilidade de pensar a participação do Espírito na geração do Filho, pois o Pai gera no Espírito assim como o Filho é gerado nele, o Pai. O Espírito é co-eterno ao Pai em sua paternidade e ao Filho em sua própria filiação[5]. O teólogo francês apresenta a questão da seguinte maneira:

Sem ser a origem, o Espírito está na origem; sem ser o termo, ele está no termo. Se o Pai é tal, se ele gera, é no Espírito. Se o Filho é tal, se ele se deixa gerar, é no Espírito. Os dois são Pai e Filho no Espírito, não podendo ser concebidos sem ele que é Espírito do Pai em sua paternidade, do Filho, em sua filialidade[6].

Deste modo, se em tudo que Deus faz revela algo de si, a maternidade divina de Maria a partir da concepção virginal de Jesus nos remete à compreensão de que o Espírito Santo é a própria divina concepção de Jesus, por ser Ele a própria potência de Deus Pai[7]. Maria, num estado virginal que é abertura ao Espírito Santo, revela algo do próprio Espírito, sua fecundidade.

Mas o mistério divino é sempre um transbordamento de graça universal, por isso é que podemos nos perguntar por outras expressões dessa fecundidade divina fora do cristianismo. Comblin nos endereça um caminho interessante, vejamos

Se o Espírito Santo é o ser materno que abarca a humanidade inteira, dando-lhe vida e conduzindo-a para a sua libertação, podemos aceitar que este papel foi de alguma maneira preparado ainda que de modo confuso nas religiões da maioria dos povos que reconhecem uma Deusa-Mãe universal[8].

Combin fala, ainda, de “um pressentimento do Espírito Santo, embora confuso e desviado, nas divindades maternas”[9] e o exemplo que ele nos dá é o da Pacha-mamma, na nossa América Latina, dos povos do Altiplano que formaram o antigo império dos Incas[10].

Vejamos outros exemplos que trazem consigo o binômio divindade e fecundidade em outras culturas.

Em escavações na região do Crescente Fértil[11] foram encontradas estátuas de um nu feminino com seios salientes ou órgãos genitais proeminentes que sugerem amuletos usados para pedir fecundidade ou boas colheitas como também para proteção contra eventuais males. Nessa região, mais especificamente em Canaã, tínhamos o culto a Baal, ligado às alternâncias das estações, juntamente com sua consorte Astarte, deusa da fertilidade, juntamente com Anath e Asherah. A prostituição sagrada ocupa um lugar de destaque nesse culto, em que a união de Baal com Astarte é restabelecida na união sexual. No Egito, especificamente, encontramos algumas divindades ligadas à fecundidade, contudo representadas como animais, que são: Matit, a leoa, Medfet, a gata, e Wadjet, a cobra, todas consideradas divinas e ligadas à fecundidade[12].

O culto prestado às divindades femininas, nos lugares onde o Cristianismo foi deitando suas raízes, foi lentamente sendo transferido a Maria, a partir do século IV, de modo que lugares da natureza onde se reverenciava a Deusa ou diversas divindades femininas, como grutas, florestas, montanhas, passam a ser dedicados a Maria. Lembremos, também, de cidades como Roma, Atenas, Chartres e Éfeso onde ocorreram essas transferências no culto[13].

Não somente lugares de culto, mas também símbolos da Deusa foram transferidos a Maria, como o manto azul-escuro, a coroa em espiral, a ligação como a lua e as estrelas e com a água e o mar. Também temos as estátuas da “Madona Negra” de Le Puy, Monserrat e Chartres e outras que se originam de antigas pedras pretas ligadas ao poder de fertilidade das deusas da terra, pois o preto é a cor que favorece a fecundidade subterrânea e uterina[14].

Existem estudos que consideram “Maria como sombra da outrora poderosa Deusa, sombra que agora está sob o controle masculino”[15]. Outros estudos unem a figura da Deusa com a de Maria em perfeita harmonia, pois

A Grande Mãe é também a Grande “deusa” sepultada nas nossas catedrais patriarcais. Maria é a figura que faz a ponte entre o marianismo popular miscigenado da nossa realidade cultural e religiosa, com Deus Pai, Filho, Espírito Santo, com o Deus que vive em comunidade. Maria é a Grande “deusa” que junta o povo com esse Deus comunidade divina, pois Maria representa o útero desta comunidade de amor[16].

Não é nosso interesse aprofundar o tema da devoção mariana como uma manifestação arquetípica de divindades femininas guardadas no nosso inconsciente, mas considerando a presença do Espírito de Deus em todas as culturas, podemos supor que a maternidade é um signo universal do sagrado que se expressa em Maria com magnitude.

Concluindo, a maternidade divina de Maria nos mostra o quanto o ser humano é “capaz de Deus” ao revelar que é o Espírito quem nos une visceralmente a Deus e de expressar algo de Deus mesmo a partir do que nos foi dado por Ele, ou seja, a fecundidade.

 

Referências

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 10. ed.  São Paulo: Loyola, 1999.

COYLE, Kathlenn. Maria na tradição cristã a partir de uma perspectiva contemporânea. São Paulo: Paulus, 1999.

BUCKER, Barbara P. Maria e a Trindade. São Paulo: Paulus, 2002.

COMBLIN, José. O Espírito Santo e a libertação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1988.

DURRWELL, François-Xavier. O Pai. Deus em seu mistério. São Paulo: Paulinas, 1990.

______. Cristo nossa Páscoa. Aparecida: Editora Santuário, 2006.

______. Jésus Fils de Dieu dans l’Esprit Saint. Paris: Desclée, 1997.

  1. Marie. Méditation devantl’icône. Paris: Médiaspaul/Paulines, 1990.

JOHNSON, Elizabeth A. Nossa verdadeira irmã. Teologia de Maria na comunhão dos santos. São Paulo: Loyola, 2006.

TAVARD, Georg H. As múltiplas faces da Virgem Maria. São Paulo: Paulus, 1999.

 

[1] Cf. Catecismo da Igreja Católica n. 27.

[2] TOMÁS DE AQUINO Sent. I d. 14 q.1 a.1.

[3] COYLE, Maria na tradição cristã, p. 125.

[4] DURRWELL, O Pai, p. 128.

[5] Cf. DURRWELL, Jésus Fils de Dieu, p. 98. A pergunta pela forma como Durrwell trata do Filioque  e da taxis trinitária é automática diante dessa afirmação, contudo, por uma questão de objetividade temática, não desenvolveremos a questão em nossa tese. 

[6] DURRWELL, Cristo nossa Páscoa, p. 193-194.

[7] Cf. DURRWELL, Marie, p. 18.

[8] COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 71-72.

[9] COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 72.

[10] Cf. COMBLIN, O Espírito Santo e a libertação, p. 72

[11] O Crescente Fértil é uma região compreendendo os atuais estados da Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano e Chipre, bem como partes da Síria, do Iraque, do Egito, do sudeste da Turquia e sudoeste do Irã.

[12] Cf. TAVARD, As múltiplas faces, p. 302-303. 

[13] Cf. JOHNSON, Nossa verdadeira irmã, p. 103.

[14] JOHNSON, Nossa verdadeira irmã, p. 103.

[15] JOHNSON, Nossa verdadeira irmã, p. 63.

[16] BOFF, A comunidade divina e Maria. BUCKER, Maria e a Trindade, p. 49. 

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