Artigos
            Informações             Artigos             Misericórdia e Vida Fraterna
16/11/2016 Frei Celso Márcio Teixeira, OFM Misericórdia e Vida Fraterna
A+ a-

O papa Francisco, ao proclamar 2016 o ano santo da misericórdia, convida-nos a uma reflexão e a uma prática da misericórdia. De fato, de nada adiantam belas e profundas reflexões, se estas não conduzem a práticas concretas, a transformações de comportamentos, a adoção de novas maneiras de relacionamentos que dignifiquem a vida das pessoas. O próprio papa nos alerta: “a misericórdia de Deus não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta” (Misericordiae vultus= MV).

O tema é amplo. Por isso, limitar-nos-emos a considerá-lo apenas sob o enfoque da vida fraterna franciscana. Buscaremos primeiramente uma compreensão da misericórdia a partir do evangelho; depois, situá-la-emos dentro da espiritualidade franciscana.

Jesus e a misericórdia

Ao abordarmos o tema da misericórdia, penetramos num ponto axial e característico da mensagem e da prática de Jesus de Nazaré. Não é ela o núcleo da parábola da ovelha desgarrada (Lc 15, 4-7), da dracma perdida (Lc 15, 8-10), da do filho pródigo (Lc 4, 11-31) e do dever de perdoar setenta vezes sete (Mt 18, 21-22)? Se a lei do talião (Ex 21, 24; cf. Mt 5,38) foi um abrandamento da lei de Lamec (Gn 4, 23-24), não é a misericórdia cristã a superação definitiva da lei de Lamec e da lei do talião? Não é a misericórdia a justiça dos discípulos de Cristo, a qual excede a justiça dos fariseus e escribas e os torna aptos a entrarem no Reino dos Céus (Mt 5, 20)?

Coerente com sua mensagem, a prática de Jesus constitui a própria presença da misericórdia do Pai entre os homens não somente em episódios como o da mulher adúltera (Jo 81-11) e o da mulher que lavou os pés dele com suas lágrimas (Mt 26, 6-13), mas principalmente na proximidade dele junto aos pecadores e gente de baixa condição social. Ele, sem qualquer sombra de discriminação, costumava comer em casa dos pecadores, o que despertava constantes e severas críticas por parte dos fariseus e escribas (cf. Mt 9, 10-13; Lc 5, 29-32; 19, 7). Jesus de Nazaré mostrava com sua prática que ele era a encarnação da misericórdia do Pai. Ou como diz o papa Francisco, parafraseando Santo Antônio: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”; “ela se revela como dimensão fundamental da missão de Jesus”; em Jesus chegou “o bálsamo da misericórdia como sinal do Reino de Deus já presente no meio de nós” (MV).

O enfrentamento entre Jesus, de um lado, e escribas e fariseus, de outro, traduzia o conflito entre a misericórdia e a lei. Mentalidades opostas. Enquanto a lei se preocupa com uma justiça retributiva (“paga-me o que me deves” [Mt 18, 28]), a misericórdia prima pela generosidade (“Eu te perdoei toda a tua dívida..., não devias também ter misericórdia de teu companheiro como eu tive de ti?” [Mt 18, 32-33]).

A lei condena e impõe punições. A mulher adúltera, segundo a lei, já estava condenada, devia ser apedrejada. Jesus não a condena e não lhe impõe nenhuma punição. Nas parábolas sobre a misericórdia está completamente ausente a mínima ideia de punição ou de algo que a sugira. O filho pródigo não recebeu absolutamente nenhuma punição por parte do pai. Pelo contrário, foi recebido com festas. Já o filho mais velho, símbolo da mentalidade da lei, achava que seu irmão devia receber uma exemplar punição.

Aliás, a esse propósito, não são os castigos, as sanções, as punições, os corretivos, as penitências que restauram a dignidade da pessoa que peca, mas a misericórdia. Ela é o linimento para as feridas interiores do pecador. Cura a partir de dentro. Faz ver ao pecador que sua dignidade não está perdida, mas pode ser recuperada.

Curiosamente, o Direito Canônico (CIC), entre sete livros que o compõem, dedica um (o sexto) especificamente ao assunto das punições (De delictis et poenis). São 89 cânones (de 1311 a 1399) em que está absolutamente ausente a palavra “misericórdia”. Aliás, em todo o CIC o termo “misericórdia” só se encontra duas vezes. Uma vez, para indicar as “obras de misericórdia” de vários institutos de vida consagrada (can. 676), expressão hoje equivalente a “obras sociais”; outra vez, ao tratar do sacramento da penitência, lembra ao sacerdote que ele é ministro da misericórdia de Deus (can. 978). Um termo, portanto, muito pouco usado, uma vez que faz parte do núcleo essencial do evangelho.

Sendo Jesus a própria encarnação da misericórdia do Pai, ele convida seus seguidores a serem semelhantes ao Pai: “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis, para não serdes julgados; não condeneis, para não serdes condenados; perdoai, e vos será perdoado” (Lc 6, 36-37).

Francisco e a misericórdia

Francisco sempre foi um homem prático. Também no que se refere à misericórdia. Em seu Testamento, ele usa uma expressão curiosa: “facere misericordiam” (= “fazer misericórdia”) (cf. Test. 2). A nova tradução das Fontes Franciscanas optou por traduzir literalmente esta expressão, para manter a força dela, que está exatamente no fazer, na prática.

A Carta a um Ministro é um brevíssimo tratado sobre a misericórdia. Embora breve, ela toca na essência da misericórdia. Nesta carta, ele aborda casos concretos. Um ministro provincial escreveu a Francisco ou lhe manifestou oralmente sua dificuldade nas relações fraternas, certamente reclamando de um irmão que cometia sempre os mesmos erros na fraternidade e era resistente à conversão. Francisco responde-lhe:“Não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia, caso buscar misericórdia. Se não buscar misericórdia, pergunta-lhe se quer [obter] misericórdia. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim para trazê-lo ao Senhor; e tenhas sempre misericórdia desses irmãos” (Mn 9-11).

Depois desta premissa, Francisco indica atitudes concretas que traduzem a misericórdia, tais como evitar a maledicência e a detração, os comentários fofoqueiros dentro e fora da fraternidade, o publicar ou fazer lembrar a cada momento o pecado do irmão: “E todos os irmãos que souberem que ele pecou não lhe cause vergonha nem detração, mas tenham para com ele grande misericórdia e mantenham muito oculto o pecado de seu irmão; pois não são os que têm saúde que necessitam de médico, mas os doentes (Mt 9,12)... E o custódio trate-o misericordiosamente, como ele próprio gostaria de ser tratado, se estivesse em situação semelhante (Mn 15.17).

Ainda na tentativa de exemplificar concretamente a misericórdia, em outro escrito ele faz um apelo a todos “para não se perturbarem nem se irritarem por causa do pecado ou do mal do outro” (RnB 4, 7a; cf. RB 7, 4). Para ele, todas estas atitudes contra a misericórdia são maneiras diferenciadas de participar ou de apropriar-se do pecado do irmão. É a maneira sutil usada pelo demônio para corromper a muitos pelo pecado de um só (cf. RnB 4, 7b).

Depois de alertar os irmãos para evitarem as atitudes contrárias à misericórdia, ele os adverte a ajudarem “espiritualmente aquele que pecou” (RnB 4, 8). Aliás, ao evitar as atitudes contrárias à misericórdia, já se está ajudando positivamente o irmão que pecou.

Na Regra Bulada, ao tratar dos irmãos que pecam mortalmente, ele introduz um elemento diferente: a penitência a ser-lhes imposta. Francisco estava condicionado por uma época em que a penitência era considerada caminho de santificação. Não conseguiu desvencilhar-se totalmente deste modo de pensar, até porque era a tradição e costume da Igreja. Mas parece que, quando fala em impor penitência ao irmão pecador, entra interiormente em conflito com a sua concepção de misericórdia. Acaba prevalecendo a misericórdia: “Os ministros, no entanto, se são presbíteros, com misericórdia lhes imponham a penitência” (RB 7, 3).

Francisco conhece a fraqueza do ser humano e a realidade do pecado. Ele sabe que na vida fraterna, às vezes, temos dificuldade em suportar as imperfeições, as fraquezas e pecado do outro. Às vezes, a linguagem com que tratamos as pessoas fragilizadas é ríspida, cheia de frieza, de sarcasmo, de veneno, sem levar em conta a sensibilidade delas. Daí a importância da misericórdia dentro do projeto evangélico de vida em fraternidade. Fofocas, comentários do pecado do irmão dentro e fora da fraternidade não somente indignificam o irmão, mas arrebentam a vida fraterna. Sem misericórdia, fragmenta-se, ou melhor, pulveriza-se a vida em fraternidade. A misericórdia, ao contrário, dignifica a pessoa e restaura a fraternidade. Não pode existir vida fraterna sem misericórdia.

Como conclusão, citamos, direcionando à vida fraterna, as palavras do papa dirigidas a todos os sofredores: “Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença!... A Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, no hábito rotineiro que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver... as feridas de tantos irmãos e irmãs... privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda” (MV).

Para fazer o download deste artigo, clique aqui.

Frei Celso Márcio Teixeira, OFM é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Antoniana, em Roma, e pesquisa a espiritualidade e a história franciscana.

Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
Artigos