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25/01/2017 Frei Francisco van der Poel, OFM Religiosidade popular
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UMA EVIDÊNCIA

O Concílio Vaticano II (1962-1965), foi convocado pelo Pp João XXIII para a Igreja abrir as janelas e portas para o mundo em mudança e transformação. Bispos reunidos do mundo inteiro  pretendiam promover a unidade dos cristãos e contribuir para a paz entre as nações. Começaram redefinindo a própria Igreja como sendo o “Povo de Deus”; e o primeiro documento aprovado “Sacrosanctum Concilium” trata da culto e afirma que é o povo que celebra. Isto, por sua vez, trouxe consequências para repensar o sacerdócio. Permitiram o surgimento de liturgias de acordo com a diversidade cultural dos povos. Foi assim que bola começou a rolar...

O termo RELIGIOSIDADE POPULAR ganhou evidência, quando os bispos da América Latina se reuniram a Medellin (1968) e concluiram lucidamente: Se a Igreja é o Povo de Deus e nosso povo é pobre, teremos de fazer opção pelos pobres e valorizar as expressões culturais da fé popular, de índios, negros, brancos, mestiços. “Religiosidade popular”, “piedade popular”, “catolicismo popular”, remetem à fé vivida na periferia do mundo e à margem da religião oficial, que até então celebrava em latim.

VIDA E RELIGIÃO

Na religião popular, a vida e a fé não são separadas. Ao lidar com esta religiosidade, sempre temos de levar em conta questões de ordem cultural, econômica e política (poder), quando tentamos entender a relação entre sacerdotes e leigos, entre negros e brancos, entre jovens e velhos, entre acadêmicos e analfabetos. Por isso, desde já definimos a religiosidade popular como “a experiência religiosa de comunidades pobres, socialmente oprimidas e culturalmente marginalizadas”. A vivência comunitária e livre da religião acontece nas comunidades de base. A rica pluralidade cultural de índios, brancos e negros logo nos faz perceber a necessidade da inculturação das igrejas cristãs.

INCULTURAÇÃO

No documento final de Puebla (1979), os bispos da América (CELAM) incentivam a inculturação: - a religiosidade popular é “o conjunto de crenças, atitudes e expressões religiosas adotadas por um povo” (No.444) e “vividas preferencialmente pelos pobres e simples, mesmo que abarque todos os setores sociais” (447). - Esta religiosidade do povo “constitui um acervo de valores que responde com sabedoria cristã às grandes incógnitas da existência” (448). “Esta sabedoria tem uma capacidade de síntese vital. Ela é um verdadeiro humanismo cristão, um princípio de discernimento e um instinto evangélico (sic!) pelo qual capta quando a Igreja serve ou não ao Evangelho” (448). - A religiosidade “é objeto de evangelização, mas também é uma forma ativa com a qual o povo continuamente evangeliza a si próprio” (450).

VALORES

Na sua religiosidade popular, o povo age com espontaneidade e autonomia. Eis algumas características: linguagem simples, sabedoria, poesia; fé num Deus vivo e presente; a linguagem corporal; ritual e simbologia próprios; forte tradição oral com provérbios, rezas, benditos e histórias; zelo do sagrado e do santuário (casa santa). A religião do povo está ligada à vida, é pouco sentimental e sem dualismo. Revela a dignidade do pobre de pouca leitura, que consegue improvisar e adaptar suas tradições ao celebrar o Sagrado; ele tem consciência de pertencer à igreja “católica, apostólica, romana”. Seus líderes sabem lidar com emoções e imprevistos, de forma natural. As procissões, penitências, leilões, mutirões a dança de roda são ações comunitárias. A festa é de todos, com fartura. Seus doentes são tratados de modo integral com reza, remédio e simpatias. A comunidade honra seus antepassados.

Outros valores observados: (a) O povo sabe celebrar (...é só deixar!). (b) Mulheres participam plenamente. (c) Celebram com humor, irreverência (palhaços, testamento de Judas, casamento da roça). (d) Acreditam na criação, na aliança (o pouco com Deus é muito), na encarnação (“quando Deus andou no mundo”) e na justiça divina que há de vir. (e) A brasilidade da religião está à vista. (f) O sacerdócio é dos fiéis, também do padre. (g) Esta religiosidade é cristocêntrica. (m) Valoriza antepassados, almas, santos, incluindo índios e negros.

Muitos elementos da religiosidade oficial estão perfeitamente integrados na religiosidade popular:  Na visitas do papa, o povo todo o acolhe. Romeiros cantam: “O pandeiro é do bispo/ a viola é do papa/ Vamos todos visitar/ Senhor Bom Jesus da Lapa.” Todos querem batizar os filhos. Comungam nas festas. Fazem presépio. Rezam o rosário. Semana santa é participada. Celebram seus padroeiros ... e muito mais.

ALERTAS

Para evitar equívocos e preconceitos, lembramos aqui que a religiosidade popular não deve ser definida como: 1. “a religião oficial desvirtuada e mal entendida”. 2. “permanência de restos da bruxaria européia ou crenças animistas indígenas ou africanas”. 3. “saudade daquilo que antigamente se fazia na igreja oficial”. 4. “o inevitável resultado de uma evangelização deficiente”.

Dificuldades da parte da igreja oficial são: - o cristianismo da burguesia (socialmente descomprometida); - a romanização (a purificação autoritária); - aplicação apressada e infeliz no pós-Vaticano II (reforma litúrgica, reforma do calendário); - a religião desculturada em muitas CEBs e grupos carismáticos.

O Brasil colônia tornou-se um país católico principalmente pela ação dos leigos portugueses que introduziram a fé “com a cruz e a espada”. Importantes expressões da vida e religião atual dos pobres no Brasil têm origem nas diferentes tradições regionais da cultura portuguesa, possivelmente medievais e até celtas. Não podemos esquecer que o catolicismo luso também se fez presente no Golfo de Guiné a partir de 1456.

Enquanto muitas coisas desapareceram, outras passaram por adaptações, melhoramentos, influências indígenas e africanas. Tudo isso para expressar a fé viva encontrada na religiosidade popular do Brasil nas cidades e na área rural.

ALGUNS ASSUNTOS INEVITÁVEIS

O historiador Eduardo Hoornaert vem nos lembrar: “O discurso católico ignora o mestiço. É mais fácil falar do índio ou do negro do que do mestiço. O tema é praticamente inexistente mesmo nas pastorais mais engajadas como CPT, CPO, CIMI, pastoral negra. Acontece que o Brasil é um país mestiço".[1] 

No Brasil atual, mais de 50% da população declara ser afro-descendente. Ora. O negro que quer ser cristão, não pode ser levado a deixar de ser negro. Pois a história não se nega e a identidade não se negocia.

Se até 1950, 70% da população brasileira ainda habitava em comunidades rurais, marcadas por um contexto cultural homogêneo e tradicional, hoje a religiosidade popular é marcadamente urbana. A vida na cidade grande (80% da população brasileira) é marcada por formalismo e burocracia, anonimato e individualismo, correria e violência. O pluralismo cultural global visto na mídia e na internet é provocador. Os migrantes receberam grande impacto. Sua religiosidade de origem tenta adaptar-se recriando os valores trazidos.

Na opinião do teólogo Segundo Galilea, neste hora decisiva para a sobrevivência da religiosidade popular, “a pastoral urbana parece não enxergar o potencial da fé do pobre quando respeitado! A evangelização do catolicismo popular é uma vertente da libertação cultural e religiosa.”[2]

RESUMINDO

A religiosidade popular, além da dimensão histórica, é manifestação de vida comunitária. É cultura religiosa: fé católica dentro de realidades concretas. A religião “acontece” no cotidiano, na língua materna, quando o povo age do seu jeito: livre, criativo, alegre, sincero, com bom senso.

Ao querer construir um mundo de igualdade e paz e cuidar da nossa “casa comum”, temos que pensar grande ... É o Reino de Deus que também é nosso. Nele, negros, brancos e índios pertencemos ao povo eleito a quem Deus na sua misericórdia fez grandes promessas. Vamos com Deus.

Mais informações

Blog:http://religiosidadepopularabc.webnode.com//

site: www.religiosidadepopular.uaivip.com.br

Dicionáio da Religiosidade Popular

[1] HOORNAERT, Eduardo. "Discurso católico e discurso estrangeirado." In: Revista Eclesiástica Brasileira. v.50. fasc.199. set./1990. p. 650.

[2]GALILEA, Segundo. Religiosidade popular e pastoral. São Paulo: Paulinas, 1978. p. 52.

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