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29/03/2017 Paolo Mattei para 30giorni.it Notícias Uma arte que desperta veneração: entrevista com Marko Ivan Rupnik Entrevista com padre Marko Ivan Rupnik, diretor do Ateliê de Arte Espiritual do Centro Aletti, de Roma
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"A grande diferença é esta: uma obra de arte pode suscitar a surpresa e a admiração, mas a arte que entra no espaço litúrgico deve suscitar veneração. A veneração que o simples fiel expressa com o sinal-da-cruz, a genuflexão, a oração."

Apesar de ser uma entrevista concedida em 2008, a temática é extramamente atual. Por isso, a leitura é recomendada. Vale lembrar que o padre Marko Ivan Rupnik participará do 11º Encontro Nacioanal de Arquitetura e Arte Sacra, em curitiba, como princiapl conferencista do evento. Para saber mais do encontro, clique aqui. Agora vamos para a entrevista.

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Padre Marko Ivan Rupnik usa um macacão de trabalho vermelho, vestimenta do artista quando está em ação. Nós o encontramos, para conversar sobre os diversos temas da arte cristã, no Ateliê de Arte Espiritual do Centro de Estudos e Pesquisas “Ezio Aletti”, do qual é diretor desde 1995.

Jesuíta esloveno de Zadlog, nascido em 1954, sacerdote desde 1985, Rupnik é consultor do Pontifício Conselho para a Cultura desde 1999 e atualmente docente no Pontifício Instituto Oriental e na Universidade Gregoriana. No ateliê romano – à sombra da Basílica de Santa Maria Maior –, tomam vida os mosaicos com os quais esse artista-teólogo, aluno do padre Tomás Spidlík, decorou igrejas no mundo inteiro. São famosos seus mosaicos da Capela Redemptoris Mater, no segundo pórtico do Palácio Apostólico, no Vaticano, produzidos em 1999. No final de 2007, terminou de traduzir em mosaico os cinco Mistérios da Luz para a fachada do santuário de Lourdes. 

Rupnik responde de imediato que está contente com a eleição de padre Adolfo Nicolás para preposto-geral da Companhia de Jesus: “Ainda não o conheci pessoalmente, mas suas palavras depois da nomeação me agradaram muitíssimo”. 

Abriu-se recentemente um debate em torno do novo Lecionário, ilustrado por trinta artistas contemporâneos. Seus críticos falaram de uma “pobreza icônica” exasperada, de um predomínio negativo do abstratismo sobre o figurativismo... 

MARKO IVAN RUPNIK: Quando a questão é a arte que entra no âmbito da liturgia, o problema não é decidir entre figurativismo ou abstratismo – embora essas não sejam as melhores definições –, que, de qualquer modo, são duas linguagens fundamentais e imprescindíveis da arte. A meu ver, mais do que isso, o artista que se vê trabalhando com a liturgia deve levar em conta essencialmente a linguagem litúrgica, que gira em torno do “pessoal” e do “comunitário” e, assim, vai além do subjetivo e do objetivo. No espaço litúrgico, a questão problemática é o subjetivismo, o solipsismo da linguagem do artista, porque, depois, na prática, uma obra figurativa pode ser mais subjetivista que uma obra abstrata. 

O que o senhor entende por “subjetivismo” na arte?

RUPNIK: Numa cultura objetivada, conceptual e científica, a arte transforma-se no âmbito do protesto contra tudo o que é excluído e suprimido da pessoa humana. Sobretudo o mundo dos sentimentos e da liberdade. O artista, por isso, quer expressar a si mesmo como único, inconfundível. Para tanto, opta por uma expressão intensa, impetuosa, usando uma linguagem subjetiva. Já a linguagem litúrgica, ao longo dos séculos, purificou-se daquilo que era psicológico demais, afetivo e sentimental demais, para chegar a uma essencialidade simbólica, metafórica, que, de um lado, sabe se alimentar da objetividade da Revelação de Cristo e, de outro, pode ser reconhecida a qualquer momento da história pelo povo cristão. 

Como é possível resolver esse conflito entre as instâncias individualistas do artista e uma arte como a litúrgica, que tem uma função “pública”? 

RUPNIK: O conceito de subjetivismo, como mencionei, é superado, na espiritualidade cristã, pelo termo “pessoal”. Em sentido teológico, a idéia de “pessoal” inclui ao mesmo tempo duas dimensões: uma comunitária e uma individual, diferentemente do subjetivismo, termo que brota do antagonismo contínuo entre “indivíduo” e “coletivo”: estas duas últimas categorias não pertencem à autêntica tradição cristã. As idéias de “pessoal” e “comunitário” não estão em conflito, mas relacionam-se uma com a outra no ambiente trinitário e eclesial. Por isso, o “pessoal-comunitário” inclui também o objetivo. Parece-me que, com o Lecionário, tenha-se tentado uma distinção de diversos níveis no âmbito da arte litúrgica, embora seja verdade que o Lecionário sempre foi objeto de veneração. 

Então o senhor avalia como positivos esses sinais de abertura da Igreja aos artistas contemporâneos... 

RUPNIK: A Igreja italiana, convidando para uma colaboração no Lecionário, tentou algo de certa forma extraordinário e importante, no sentido da reconstrução de uma ponte com os artistas contemporâneos. O divórcio entre a arte e a Igreja é um fato doloroso, que Paulo VI já denunciava publicamente. Espero que se inicie uma relação constante com os artistas envolvidos nesse projeto. 

De que forma? 

RUPNIK: A Igreja tem a sua disposição sacerdotes, teólogos, religiosos e leigos, pessoas capazes de levar essa relação a crescer. O problema é quando, mesmo na Igreja, as pessoas são conquistadas pela insistência da moda, quando o altar, o presbitério, o púlpito, a casula, o cálice são tratados como objetos de arte de galeria. 

Como esse problema pode ser resolvido? 

RUPNIK: Precisamos urgentemente recuperar uma linguagem que corremos o risco de perder. Nessa perspectiva, são realmente magistrais as palavras que o então cardeal Ratzinger dedicou à arte em seu livro Introdução ao espírito da liturgia: uma bússola importantíssima. A meu ver, temos urgência de um “estatuto” da arte litúrgica. 

E o que isso significaria? 

RUPNIK: Propor novamente um sério e apaixonado estudo da arte paleocristã, românica, do primeiro período bizantino, do primeiro gótico... Devemos oferecer ao artista contemporâneo a possibilidade de chegar a ter o mesmo olhar do iconógrafo e do escultor daquelas épocas, e, ao mesmo tempo, de expressar-se com a linguagem de hoje. Ou seja, fazer a síntese dessas duas realidades. Isso, porém, só é possível no âmbito da vida espiritual e eclesial. 

Não existe nisso o risco de uma operação de caráter um tanto nostálgico? 

RUPNIK: Não, não! Nada disso. A Igreja é incompatível com a nostalgia, por ser escatologicamente orientada. A nostalgia é uma patologia e uma resistência à criatividade, pois é sintoma de morte. Devemos continuar a andar para a frente, “criando” a partir da memória sapiencial da Igreja. A tradição não é um livro morto, mas um organismo vivo. 

Que tipo de figura expressa mais, então, aquilo que é celebrado na liturgia? 

RUPNIK: A arte dos cristãos no espaço litúrgico sempre foi uma “arte da presença”. Portanto, uma linguagem essencializada, sem detalhes que levem à distração, na qual tudo – até mesmo o artista e as pessoas às quais a obra é destinada – é assumido no mistério que se comunica. A grande diferença é esta: uma obra de arte pode suscitar a surpresa e a admiração, mas a arte que entra no espaço litúrgico deve suscitar veneração. A veneração que o simples fiel expressa com o sinal-da-cruz, a genuflexão, a oração: porque a presença de Deus está ali. Não é suficiente que a pessoa diga: maravilhoso! É preciso que haja uma vida lá dentro, que torne possível perceber o Mistério presente. João Paulo II, falando da arte, disse que ela “é conhecimento traduzido em linhas, imagens e sons, símbolos que o conceito sabe reconhecer como projeções da vida sobre o arcano, para além dos limites que o próprio conceito não consegue ultrapassar: aberturas, portanto, ao profundo, ao outro, ao inexprimível da existência, caminhos que mantêm livre o homem em seu rumo para o mistério e traduzem seu anseio, que não possui outras palavras com as quais possa se exprimir. A arte, portanto, é religiosa, pois leva o homem a ter consciência da inquietude presente no fundo de seu ser, inquietude que nem a ciência, com a formalidade objetiva das leis, nem a técnica, com a programação que preserva do risco do erro, jamais conseguirão satisfazer”. Paulo VI, ao descrever as prerrogativas do artista, usou o termo alemão Einfühlung, explicando assim seu significado: “A sensibilidade, ou seja, a capacidade de perceber, mediante o sentimento, aquilo que, por meio do pensamento, não conseguiria entender e exprimir”. 

É difícil que alguém chegue a experimentar esses sentimentos entrando em algumas das igrejas construídas nas últimas décadas... 


RUPNIK: Muitas das igrejas construídas nestes últimos anos expressam uma grande pobreza espiritual e uma ampla incapacidade de discernimento. Quando o diálogo com a cultura contemporânea significa a obrigação de encomendar os projetos das igrejas apenas aos arquitetos mais célebres, é óbvio que o diálogo se ideologizou. Quando construímos uma igreja, manifestamos aquilo que somos. Ao longo da nossa história, a igreja-edifício sempre teve como ponto de referência a Igreja e os mistérios por ela celebrados. Se hoje quase ninguém é capaz de expressar as características claras dessa identidade, isso provavelmente significa que no momento nos perdemos. Mas precisamos ter muito cuidado para não cair na armadilha da dialética ideológica e, assim, dar largas à nostalgia, que recusa as linguagens artísticas contemporâneas. Não devemos assumir uma postura de contraposição à contemporaneidade. É preciso que estejamos atentos às novidades da cultura – na qual nós também, afinal, estamos mergulhados –, sem que isso se traduza numa submissão mecânica às modas. A humilde fidelidade à Tradição é que permite essa abertura ao mundo. 

Em outras palavras? 

RUPNIK: A meu ver, o que está em jogo é a vida. A vida que nós, cristãos, temos, nós a recebemos do batismo. Fomos gerados num parto que é o batismo, por uma mãe que é a Igreja. A Igreja é imagem da comunhão trinitária, na qual nós, por meio das palavras sacramentais, da água, do evento sacramental do batismo, fomos inseridos. Portanto, a vida que recebemos é uma comunhão com Deus, com os outros e com a criação. Isso significa que a vida que recebemos – sua constituição, seu “estilo” – é comunhão e diálogo. A vida se realiza, portanto, na comunhão com Deus – oração –, com os outros – caridade – e com a terra – transfiguração do mundo. Uma comunhão tridimensional organicamente inseparável. A igreja que construímos não pode deixar de levar a que se vislumbre essa vida. Sendo que a vida que recebemos pertence a Cristo, e que a vivemos em Cristo, que no mistério pascal realizou o ponto mais alto da Revelação, a presença dos cristãos no mundo não pode se realizar fora dessa vida. 

Se é assim, por que nos encontramos nesta situação? 

RUPNIK: Porque a comunhão e o diálogo também foram mal entendidos e ideologizados. É mais fácil trabalhar com uma dialética abstrata que com uma inteligência impregnada de vida. Também na arte, o que deveria ficar evidente não são as posições teóricas, mas a vida da Igreja: é o ponto fundamental. A construção das igrejas, sua decoração e suas obras de arte internas refletem a teologia e a pastoral que são ensinadas e a vida espiritual que se propõe. Tudo está interligado. As igrejas que vêm sendo construídas expressam essa vida sufocada sob andaimes e construções que não lhe pertencem e que, por isso, não a podem comunicar. 
Levando em conta essa situação, o senhor pode traçar, a partir de sua experiência no ateliê do Centro Aletti, o perfil ideal do artista que trabalha na esfera litúrgica? Como ele deve se comportar, o que deve levar em consideração? 

RUPNIK: Naturalmente, não existe uma regra fixa. Sem dúvida, sempre existe uma atração agindo na vida de todo artista. Existe uma beleza que atrai. O teólogo Pavel Florenski dizia: “A Verdade revelada é o Amor, e o Amor realizado é a Beleza”. Pois bem, o artista é atraído pela Beleza, que é o Amor realizado, ou seja, a Páscoa. Pode ter, por graça, a humildade de deixar-se fecundar pelo Mistério. Quem trabalha com esse Mistério não pode fazer outra coisa a não ser acolhê-lo, dar-Lhe espaço em sua vida e deixar que Ele aja. 

Outras características importantes? 

RUPNIK: Em primeiro lugar, a humildade, mas não entendida no sentido psicológico, como atitude que a pessoa deva assumir, quase como se fosse fruto de sua inteligência ou diligência. A humildade é dom do Espírito Santo, que sopra onde quer e pode invadir até artistas não cristãos. Trata-se precisamente de uma humildade teológica. Quanto mais for madura no artista a consciência de que ele recebe esse dom, mais sua obra deixará de lhe pertencer e sua produção deixará de ser o campo de sua afirmação, tornando-se o espaço de seu humilde serviço. Só assim a obra poderá ser doada a tantas pessoas, e tantas pessoas se reconhecerão nela. Com a arte se dá o mesmo que se dá com o amor: o amor exige humildade e ação. Quanto mais a pessoa é humilde, mais é atravessada pelo amor. Quanto mais se envolve pessoalmente, mais é universal. 

E o que mais? 

RUPNIK: É preciso ter uma grande familiaidade com a Palavra de Deus – pois, como diz o Concílio Niceno II, a arte é uma tradução da Palavra de Deus – e com a memória da Igreja: os Padres, os santos, a arte dos cristãos. É preciso também conhecer o debate do século em que se vive, ou seja, ter intimidade com a linguagem artística contemporânea, e estar inserido na vida da Igreja. É preciso que tenhamos uma vida espiritual, que vivamos as mesmas dificuldades de nossos contemporâneos, para poder compartilhar com eles os passos da redenção que nos foi doada. Para nós, do Centro Aletti, é fundamental o trabalho em conjunto. Trabalhar juntos, viver constantemente o exercício da caridade recíproca e do diálogo fecundo. A partir da Igreja, criamos para a Igreja. 

Quais são seus artistas de referência, suas “estrelas guias” no firmamento da arte?

RUPNIK: Mais que pessoas, vou falar de épocas: pré-românico, românico, gótico e primeiro bizantino são os períodos e o estilos fundamentais para mim. No contemporâneo, numa certa época vivi profundamente mergulhado em Van Gogh; depois foi a vez de Matisse, com seu desenho essencializado, mas vivo. Eu era atraído pelo colorismo de Nicolas de Stael. Adoro as correntes mais materiais, como, por exemplo, a arte pobre, pois, num tempo como o nosso, que tende cada vez mais para o virtual e o imaginário, acho importante o amor à realidade, à criação. Nós conhecemos a encarnação de Deus. A Beleza é o corpo da Verdade e do Bem. 

Como o senhor se prepara para começar a realizar uma obra que lhe é encomendada? 

RUPNIK: Em primeiro lugar, parto do diálogo com a pessoa que a encomenda, com o pároco, o bispo ou a comunidade cristã para a qual devo realizá-la. Um diálogo que às vezes pode durar até alguns meses; houve vezes em que durou mais de um ano. 

Uma palavra final sobre seu último trabalho, os mosaicos na fachada do santuário de Lourdes... 

RUPNIK: Foi uma graça de Deus, pois nós, do Centro Aletti, somos uma realidade pequenina. Toda obra, para nós, exige um comprometimento total, não importa onde seja realizada. Logo depois de Lourdes, por exemplo, fomos para Ravoledo, perto de Bormio, um vilarejo em cima de uma montanha no qual vivem menos de duzentas pessoas... 

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